Corporate Venture in Brasil 2025: dominância da IA e corrida para a vantagem competitiva

Por Eduardo Bentivoglio

  • Evento promovido pela Apex Brasil contou com participação de players nacionais e internacionais relevantes, reforçando a capacidade de colaboração de diversos agentes públicos e privados.
  • Participantes destacaram que o capital paciente dos CVCs se transformou em vantagem competitiva, sendo direcionado para promover sinergias entre corporações e startups e preparando o terreno para a próxima revolução tecnológica, na qual a IA terá um papel muito mais relevante.
  • Apoiadora do evento, a EloGroup apresentou uma pesquisa inédita consolidando os dados de investimento do último ano, reforçando a maior disciplina financeira dos CVCs neste ciclo, no qual realizaram menos investimentos, mas focaram em oportunidades mais estratégicas.

O evento Corporate Venture in Brasil, um marco no calendário do ecossistema de inovação e investimentos da América Latina, encerrou sua edição 2025 reforçando a visão de que o Corporate Venture Capital (CVC) não é mais uma iniciativa adjacente à estratégia das empresas, mas um motor indispensável de aprendizado, transformação e crescimento para as grandes corporações.  

Ao longo de dois dias de evento, realizado em 21 e 22 de outubro, diversos palestrantes estiveram no Hotel Unique, em São Paulo, para trazer sua visão e experiência no mercado de CVC no Brasil e no exterior, convergindo para a ideia de que o mercado nacional ainda está em amadurecimento, mas que, nos últimos anos o capital paciente dos CVCs tem sido bem utilizado para incentivar e fazer parte de disrupções tecnológicas mais significativas a fim de enfrentar os desafios regionais e globais. 

A EloGroup, apoiadora institucional do evento, participou ativamente das discussões e da pesquisa que fundamenta a tradicional premiação do evento, que reconhece as Corporates que estão movimentando esse mercado. Agora, trazemos um panorama detalhado das conversas que dominaram o palco da edição 2025 que, em comparação com as edições anteriores, demonstrou um salto em maturidade, com discussões menos focadas no hype tecnológico da transição energética e da IA e mais em como essas tecnologias podem ser utilizadas para gerar valor tangível.

CVC em um mercado em transformação: resiliência e longevidade

A conversa do painel “International Corporate Venture Capital Insights – Cases & Trends” indicou que, no cenário global, observou-se um sinal de impulso promissor, especialmente nos EUA, e um retomada dos investimentos em hard tech e deep tech. Os debatedores – Nichola Bates, CEO e Founder da XelaratedFifty (Boeing Global), Tamara Steffens, Managing Director da Thomson Reuters Ventures, Xinjie Wang, Executive Director da Mercer Legacy, e Amanda Coutinho, Investment Director da ISA Capital – concordaram que o Corporate Venture Capital ganhou vantagem nos últimos anos, pois não depende de sócios limitados (LPs), o que facilitou a realização de investimentos em um período desafiador para fundos tradicionais levantarem capital. Ter a corporação como um sócio estratégico no cap table é visto como um ativo de grande valor pelas startups. 

No mercado brasileiro, os destaques da Pesquisa CVC in Brasil 2025, apresentada por Jaime Frenkel, sócio da EloGroup, revelaram que, embora o número de rounds de CVC tenha sofrido uma queda significativa (66 rounds mapeados entre julho de 2024 e jun de 2025, menos da metade dos 12 meses anteriores), o volume total de capital investido se manteve relevante. Essa manutenção do capital investido, apesar da queda na atividade, sugere que os CVCs estão optando por menos investimentos, mas com tickets maiores.

Fórmula da longevidade: o caso Qualcomm Ventures

Durante um dos fireside chats mais impactantes do evento, “Surviving for 2 Decades – The Qualcomm Case”, Stephanie Ng, diretora da Qualcomm Ventures (QV) compartilhou o segredo da perenidade e resiliência do CVC, fundado em 2000, de que não se trata apenas do retorno financeiro no papel, mas do retorno “de verdade, em caixa”. A liquidez permitiu ao fundo passar pelos ciclos e ter o timing acertado, continuando a investir quando o mercado estava em baixa, como após a crise de 2008. 

Com uma postura stage agnostic, a QV já realizou mais de 20 investimentos na América Latina em rodadas Séries A, B e C, e já ajudou a criar cinco unicórnios (como Zoom, Waze e Xiaomi). De acordo com a executiva, investimentos seed (embora possam gerar bons múltiplos) não compensam o foco gerencial necessário, pois “um retorno de $5 milhões de dólares em um ticket pequeno não mexe muito o ponteiro para a corporação”, detalhou Stephanie.

Stephanie Ng, diretora da Qualcomm Ventures
Stephanie Ng, diretora da Qualcomm Ventures.

Revolução da IA: do hype ao pragmatismo

A Inteligência Artificial deixou de ser um tema de especulação para se tornar o motor da nova onda de investimentos corporativos. Em 2025, mais da metade dos aportes de Corporate Venture Capital (CVC) no mundo esteve direcionada a startups de IA, um salto expressivo em relação a 2024, quando o setor movimentou cerca de US$ 108 bilhões, o equivalente a 40% dos deals globais. No evento, o debate sobre IA mostrou maturidade, saindo do hype tecnológico e passando para a aplicação prática. 

Entre os exemplos apresentados no painel “Beyond AI Investment: CVCs Powering Strategic AI Transformation”, a ArcelorMittal mostrou como vem transformando operações industriais com IA. Segundo Rodrigo Carazolli, diretor de Transformação de Negócios da companhia, a ferramenta R-Predicta já prevê falhas críticas em equipamentos siderúrgicos de forma autônoma, gerando economia milionária. Hoje, 20% dos projetos internos de inovação da empresa no Brasil têm a IA como base tecnológica principal. Já a Vibra Energia, representada por Renato Vieira, diretor de Inovação e Inteligência Artificial, destacou casos de uso verticais com retorno financeiro direto, como o aumento da precisão na precificação de combustíveis, e reforçou a importância de investir em capacidades internas. 

Além de financiar startups, os CVCs ajudam as corporações a decidir quando construir soluções internamente, adquirir empresas ou firmar parcerias. Segundo Maurício Escobar, cofundador e conselheiro da Ânima Educação, o processo de due diligence conduzido pelo fundo sobre uma startup de modelos preditivos acabou acelerando a adoção de novas metodologias pela própria equipe interna, mesmo sem o investimento se concretizar, um exemplo claro de como o CVC pode gerar valor através dos aprendizados obtidos durante o processo de screening & selection.

Estratégia que protege o core business e cria novos horizontes

No painel Keep on Moving – Reinventing Corporate’s Core Business Through CVC, mediado por Richard Zeiger, da MSW Capital, a BB Seguros exemplificou como a inovação aberta passou a fazer parte do seu DNA. Segundo Bruno Alves, diretor de Tecnologia e Soluções Digitais, a combinação entre tecnologia, dados e CVC fez a empresa dobrar seus resultados em três anos, com 40% das receitas de 2024 vindas de produtos criados recentemente. 

De acordo com Caio Moriani, coordenador de Inovação Aberta e CVC da Embraer, projetos de alto risco, como o eVTOL da Eve (aeronave elétrica projetada para mobilidade urbana), são desenvolvidos fora unidades do core business, preservando o desempenho das áreas consolidadas de aviação comercial e executiva. 

O painel ainda destacou o poder das sinergias entre corporações. A startup Next Atlas, por exemplo, inicialmente parceira da Embraer, foi usada pela BB Seguros para desenvolver produtos voltados a pilotos. Casos como esse mostram como o coinvestimento e o compartilhamento de soluções entre grandes empresas ampliam resultados e consolidam o CVC como um motor de transformação cultural e estratégica.

Validação internacional e independência da Startup

No “Fund Manager Showcase Session”, Piero Minardi, da ABVCAP, trouxe dois exemplos de destaque: Azos e Tractian. A Azos, insurtech que quer democratizar o seguro de vida, recebeu investimento da Munich Re, o primeiro da gigante global na América Latina, em um modelo de CVC com total autonomia para os fundadores. Segundo Rafael Cló, Co-Founder & CEO, a parceria deu à startup não só capital e credibilidade, mas também acesso técnico e validação internacional, impulsionando seu crescimento e inspirando novos formatos de produto que já chamam atenção até no mercado norte-americano.

Já para Leonardo Scopel, Director of Sales da deeptech Tractian, o apoio de CVCs como Siemens (Next47) e SAP (Sapphire) validou a superioridade técnica da solução, que combina hardware próprio e software de ponta. O modelo de investimento adotado, com governança independente e foco em colaboração estratégica, garantiu liberdade à startup e abriu portas para sua expansão internacional. A Tractian simboliza, ao lado da Azos, uma nova geração de startups brasileiras que não apenas atraem o olhar de investidores globais, mas exportam tecnologia e desafiam fronteiras setoriais.

Philippe Schlumpf, Head do Itaú Ventures
Fala de Philippe Schlumpf, Head do Itaú Ventures.

Brasil em foco

Os CVCs estão ganhando protagonismo no país, participando de 25% de todos os investimentos em 2024. O painel “Brazil on the Spot – Financial CVCs dealing with Brazilian solutions”, moderado por Rafael Moreira, CEO and Founder da Bertha Capital, destacou como Itaú e Citi têm adotado abordagens complementares para impulsionar a inovação no setor financeiro. Segundo Philippe Schlumpf, Head do Itaú Ventures, o banco estrutura sua estratégia sob as lentes de Core Banking, Beyond Banking e Eficiência, e busca posições relevantes de governança, investindo lado a lado com fundos de venture capital líderes. Sete dos oito investimentos já evoluíram para parcerias comerciais com o banco. A instituição também enfatizou o papel dos dados estruturados como base essencial para o uso eficaz da IA, que já permeia cerca de 150 produtos do Itaú, sustentados por uma equipe de 500 profissionais especializados.

Já o Citi Strategic Investments, de acordo com o investor Aldo Alvarez, atua com uma lógica mais flexível, priorizando participações minoritárias entre 1% e 25% e um foco claro em sinergias comerciais e tecnológicas, e não em aquisições. O fundo mantém uma postura hands-off, mesmo quando colaboram com concorrentes diretos do banco. Essa abordagem busca capturar inovação de forma descentralizada, permitindo que o Citi amplie seu acesso a soluções tecnológicas e modelos de negócio emergentes no ecossistema Fintech latino-americano.

O painel “The Future of Tech Trends is Now! International CVCs Share Perspectives on Brazil”, moderado por Laura Chicurel (Innova360/Bluebox), contou com Maria Tereza (SoftBank), Sebastian Gonzalez (Wayra), Ziheng Li (Saison Capital) e Humberto Matsuda (Kamay Ventures), apresentando visões complementares sobre como o CVC vem fortalecendo o ecossistema tecnológico regional. O consenso foi unânime: a Inteligência Artificial é o grande motor de mudança da década, e o Brasil se destaca como terreno fértil para soluções que unem tecnologia e impacto, em áreas como inclusão financeira, produtividade e sustentabilidade.

Os executivos destacaram que a América Latina reúne uma combinação rara de fatores, como escala populacional, diversidade de talentos e desafios estruturais que estimulam a inovação com propósito. Para fundos como Kamay Ventures e SoftBank, as oportunidades mais promissoras estão justamente na interseção entre IA e impacto social. Já Ziheng Li, da Saison Capital, apontou o Brasil como um dos mercados mais atraentes do mundo para investimentos em crédito e fintechs, pela maturidade regulatória e tamanho de mercado. Para os painelistas, o país já se consolidou como o epicentro de inovação da região.

Entre as tendências emergentes do CVC, Sebastian Gonzalez, da Wayra, destacou uma mudança qualitativa no perfil dos investimentos: “Menos apostas, com valores maiores e foco em impacto duradouro”. A nova lógica busca endereçar desafios complexos, como a crise climática, a saúde e o acesso a serviços básicos, com visão de longo prazo. Ainda que a liquidez siga como desafio, os fundos corporativos têm a vantagem do capital paciente, o que permite criar mecanismos alternativos de retorno, como secondaries e tender offers.

Para o futuro, Maria Tereza, do SoftBank, reforçou que o diferencial competitivo da IA na região virá da exploração inteligente de dados proprietários, e que empresas devem decidir estrategicamente se vão “construir, comprar ou fazer parceria” com quem domina a tecnologia. Com base regulatória moderna e ambição global, os painelistas concordam que a América Latina tem potencial para se tornar o próximo grande polo mundial de inovação.

Integração entre CVC e P&D

fireside chat “Bringing my Corporate to the Table, Connecting the Deal with R&D Department”, com Bruno Arcadier, Head da Vale Ventures, e Pedro Porto, Head do departamento de P&D da Vale, destacou a importância da integração. Inicialmente, o CVC (fundo de $100 milhões) foi recebido com desconfiança pelo P&D (que investe $170 milhões anualmente e foca em inovações incrementais). No entanto, a complementaridade se mostrou crucial.

Embora o relacionamento consuma bastante tempo, exigindo alinhamento constante, o CVC atua fazendo a triagem de deals e trabalha em conjunto no due diligence técnico. Os líderes da Vale mencionaram que as métricas de retorno estratégico são mais difíceis de definir do que as financeiras. Uma métrica importante é ouvir da área de P&D como o CVC está ajudando a mudar o mindset e a trazer novos insights que impactam projetos.

O painel “High Level Decision Makers Joining the Stage”, moderado por Fabiana Fagundes (FM/Derraik), contou com Gustavo Yuasa (Lojas Renner), Juan Merlini (Vale) e Luiza Contursi (Petrobras), que reforçaram que o CVC é hoje uma ferramenta essencial para acelerar, proteger ou reinventar o core business. As companhias destacaram que a estratégia de investimento deve estar totalmente integrada à estratégia corporativa, pois inovar é também preparar o negócio para futuros ciclos de disrupção. Mais do que retorno financeiro, o CVC tem o papel de criar capacidades internas e fortalecer o diálogo com o ecossistema de inovação, ampliando o olhar da organização para tendências e oportunidades emergentes.

Entre os exemplos, Luiza Contursi destacou o fundo corporativo da Petrobras, criado em 2023 com foco na transição energética e aporte inicial de R$ 500 milhões. A iniciativa pretende investir em até 15 startups de base tecnológica ligadas a temas como mobilidade elétrica, descarbonização e armazenamento de energia, áreas estratégicas para o futuro da companhia.

Já Gustavo Yuasa citou o caso das Lojas Renner, cujo investimento em uma empresa de open finance trouxe ganhos estratégicos inesperados ao ampliar o acesso a dados de mercado. Juan Merlini, por sua vez, ressaltou como o CVC da Vale atua como ponte entre inovação e sustentabilidade, testando soluções capazes de transformar toda a cadeia da mineração.

Novos players entre CVCs de médio porte

O CVC de empresas de mercado médio, como a Montreal Ventures e a Rosey Ventures (Grupo Marista), também enfrenta o desafio de convencer a companhia a incorporar uma cultura que investe em inovação sem ter controle. No fireside chat “Newcomers from Middle Market”, moderado por Bruno Rondani (100 Open Startups), o debate se concentrou nesse público ainda pouco explorado no ecossistema de inovação.

Representadas por Vinicius Marcílio, Head de CVC da Montreal Ventures e Guilherme Amorim, Diretor de CVC da Rosey Ventures (Grupo Marista), essas corporações demonstraram que a lógica do investimento em startups pode e deve ser adaptada à realidade de negócios com estruturas mais enxutas e cultura de decisão mais centralizada.

No caso da Montreal, o propósito do CVC é reforçar a perpetuidade da companhia, enquanto a Rosey Ventures tem como foco ampliar o horizonte de inovação para H2 e H3, complementando as esteiras já existentes dentro do grupo, especialmente nas áreas de educação e saúde. Como ressaltaram os executivos, é preciso convencer a companhia a investir sem necessariamente ter o controle, aceitando o risco e a imprevisibilidade que acompanham a inovação.

A Rosey Ventures destacou que o maior ganho até agora foi cultural, ao permitir que executivos de áreas tradicionais passassem a enxergar o valor de soluções tecnológicas que não se limitam ao core business. Já a Montreal Ventures trouxe como diferencial um processo decisório ágil, com um comitê enxuto formado pelo CEO e sócios, o que acelera o “go/no-go” dos investimentos.

Jaime Frenkel (dir.), da EloGroup, com os campeões do prêmio CVC de 2024.
Jaime Frenkel (dir.), da EloGroup, com os campeões do prêmio CVC de 2024.

Aprendizados dos Campeões de 2024

O painel “Lessons from the 2024 Champions”, moderado por Jaime Frenkel, da EloGroup, reuniu alguns dos principais nomes do CVC brasileiro, responsáveis por cases que marcaram o ano passado. Thiago Iglesias (Torq/Evertec), Juliana Sarilio (BB Ventures) e Leonardo Peters (Unifique Tech Ventures) compartilharam suas visões sobre como o investimento corporativo em startups está evoluindo no país e, mais importante, o que diferencia as iniciativas que conseguem gerar valor real e resultados consistentes. Em comum, os executivos destacaram a importância de um CVC mais estratégico e integrado ao negócio principal, capaz de olhar para horizontes de inovação que vão além do curto prazo e da rentabilidade imediata.

O case da Torq/Evertec, premiado na categoria Maior Exit em 2024, mostrou como o investimento certo, no momento certo, pode maximizar retornos e acelerar transformações. A venda da Celcoin, startup investida pela Torq, simbolizou o valor do CVC dentro da nova liderança da Evertec. Segundo Iglesias, a decisão de investir em estágios mais avançados, como Série B, aumentou as chances de captura de valor financeiro, mas o ganho mais relevante veio da capacidade de o CVC abrir caminhos para inovações que dificilmente seriam alcançadas apenas por meio de fusões, aquisições ou P&D tradicionais.

Já no caso da BB Ventures, vencedora na categoria Maior Aporte no ano passado, Juliana Sarilio destacou a combinação entre as alavancas financeira e estratégica como fator de sucesso. O maior aporte do ano, feito na startup Triving, nasceu de um projeto piloto (PoC) e resultou em sinergias tangíveis, como o lançamento do produto BB Expenses, que une o banco, o cliente corporativo e a startup em um ciclo virtuoso de inovação e eficiência.

A Unifique Tech Ventures, eleita o CVC Mais Ativo de 2024, trouxe uma perspectiva distinta, mas igualmente poderosa, de que o capital é apenas parte do valor entregue a uma startup. Para Leonardo Peters, o verdadeiro diferencial está na sinergia que se cria entre o investidor corporativo e o ecossistema, algo que a Unifique tem explorado com uma estratégia de diversificação que abrange segmentos como saúde, finanças e até o mercado pet, apoiada em uma base de mais de 1,3 milhão de clientes.

Olhando para o futuro, os vencedores do ano passado sinalizaram movimentos ambiciosos. A Torq prepara sua expansão internacional via ZFlow, enquanto a Unifique aposta em teses de cidades inteligentes e Indústria 4.0, projetando 2026 como o ano da colheita dos frutos plantados até aqui.

Keynotes: o CVC puramente estratégico do iFood e a próxima fronteira com o salto quântico da IBM

Diego Barreto, CEO do iFood, foi o primeiro keynote do evento e detalhou a evolução da empresa de food delivery para um ecossistema logístico e de comércio transversal. Segundo o executivo, a estratégia é centrada em alavancar a alta frequência do pedido de comida (uma oportunidade, segundo Barreto, de 90 vezes por mês, considerando três refeições ao dia) para criar densidade logística, permitindo a expansão para novas verticais (Supermercado, Farmácia).

O CVC do iFood é um exemplo claro de modelo puramente estratégico, onde a lógica não é o retorno financeiro individualizado do ativo, mas sim garantir a integração ao ecossistema e gerar uma relação forte com todos os stakeholders. O principal valor do investimento para a startup é a chance de se beneficiar desse ecossistema. A empresa enfatiza que a inovação “não é sobre estrutura, é sobre cultura”, priorizando a comunicação clara das prioridades.

No segundo dia, o keynote de uma tech giant alertou para a próxima revolução tecnológica representada pela computação quântica. Alexandre Pfeifer, Quantum Sales Leader da IBM explicou que, embora a Inteligência Artificial domine o presente, a computação quântica resolverá problemas “difíceis” que são impossíveis para a computação digital e clássica, como quebrar criptografias ou otimizar dinâmicas fluidas.

A evolução da tecnologia, segundo o roteiro quântico da IBM, está dividida em eras: utilidade quântica (desde 2023), em que já é melhor rodar algoritmos quânticos em uma máquina quântica do que em simulações clássicas, vantagem quântica (a partir de 2026), que instalará o marco de conseguir fazer algo melhor, com mais precisão, mais rápido ou mais barato com o computador quântico, e os sistemas tolerantes a falhas (a partir de 2029), em que a entrega de um computador de larga escala permitirá um salto de escala de 1000 vezes nas operações.

Ainda segundo Alexandre, o valor potencial da computação quântica é estimado em 500 bilhões de dólares. A mensagem crítica é que 90% desse valor será capturado por aqueles que se prepararem agora, devido à curva de aprendizado íngreme. O HSBC já obteve um aumento de 34% na precisão da previsão de fechamento de transações no mercado europeu de renda fixa usando a computação quântica. A inclusão da computação quântica nas discussões reforçou que os CVCs não estão apenas reagindo às tendências atuais, mas se posicionando para capturar as disrupções de H3.

Diego Barreto, CEO do iFood.
Diego Barreto, CEO do iFood.

Reconhecimento da excelência: os Campeões do CV in Brasil Awards 2025

O CV in Brasil 2025 foi encerrado com a tradicional cerimônia do Corporate Venture in Brasil Awards, cuja pesquisa é realizada pela EloGroup. Jaime Frenkel, sócio da EloGroup, subiu ao palco reforçando o papel essencial de iniciativas como essa para promover o crescimento, o amadurecimento e a expansão do mercado de Corporate Venture Capital no Brasil. A premiação reconheceu os fundos que mais se destacaram em atividade e capitalização no cenário brasileiro. 

Os vencedores destacados do Corporate Venture in Brasil Awards 2025 foram: 

  • SRM Ventures (CVC Mais Ativo) 
  • iFood, na Shopper, e Vale Ventures, na Mantel (Maior Investimento) 
  • Petrobras e Itaú Ventures (Maior Captação de Recursos)

Conclusão: CVC em rota de transformação integral

O CV in Brasil 2025 permitiu, além do networking,um diagnóstico aprofundado da maturidade do CVC no Brasil. O mercado demonstrou estar em amadurecimento, utilizando o capital paciente para mitigar o principal desafio regional, que é a falta de liquidez (exits), enquanto se concentra em tecnologias de ponta e setores de alto impacto. Os CVCs estão se integrando à estratégia corporativa de crescimento e se posicionando de forma agressiva para capturar as disrupções de IA (transformando dados em receita, por exemplo). 

O sucesso da inovação, no entanto, depende cada vez mais de fatores culturais, como o alinhamento de expectativas, o letramento organizacional em novas tecnologias, e a coragem de injetar a cultura de “testar, errar e pivotar rapidamente” em grandes corporações. O CVC se torna, assim, num catalisador que faz do capital de risco um motor de transformação cultural e operacional para o futuro das Corporações. 

A EloGroup reitera seu compromisso em acompanhar e fomentar o amadurecimento desse ecossistema, fornecendo insights estratégicos para que corporações e startups naveguem juntas rumo à próxima era de inovação e valor. Para aprofundar sua compreensão sobre as tendências do mercado e a aplicação prática do CVC, explore os insights relacionados da EloGroup.

EDUARDO BENTIVOGLIO é Redator Sênior e Editor de EloInsights

Enviar por email