Por Ricardo Avila e Rafael Freire
- 95% das organizações não conseguem medir retorno real com IA, segundo pesquisa do MIT, e o motivo não é limitação tecnológica.
- Governança de IA no C-level, dilema Build or Buy, transformação end-to-end, Agentic AI como força de trabalho digital e a evolução do CSC para Enterprise Capability Platform estão redefinindo o papel do CSC global.
Março de 2026, Orlando. A 30ª edição do Shared Services & Outsourcing Week tem tudo para ser um tipping point — não pela festa de aniversário em si, mas pelo dado que abriu a conferência e definiu todo o tom do evento.
A pesquisa do MIT jogou um balde de água fria, mostrando que 95% das organizações não conseguem medir nenhum retorno real com IA. Mais de 80% já exploraram copilots, 40% têm algum nível de implantação, mas apenas 5% chegaram à produção com impacto concreto.
A pergunta que dominou os três dias do evento não foi se a “IA funciona?”, mas “por que quase ninguém consegue implementar e escalar?”.
Representamos a EloGroup como expositores e conduzindo um roundtable sobre transformação autofinanciada com IA, tema que gerou um dos debates mais engajados no evento.
Os cinco principais tópicos que nortearam as discussões:
- Governança e risco saíram da TI e foram para a mesa do CEO. Segurança de dados, explicabilidade e qualidade dos resultados são hoje pauta de liderança executiva. Escalar IA exige confiança institucional, não só performance técnica.
- Build or buy virou uma questão estratégica. Sem decisões bem gerenciadas, o risco de acumular dezenas de soluções de IA conectadas é real. O consenso: não apostar tudo em um único fornecedor. Mas avaliar estrategicamente as opções para evitar complexidade e custos desnecessários. A arquitetura importa tanto quanto a ferramenta.
- Transformação end-to-end e “shift to the left”: antecipar automações no fluxo para capturar valor mais cedo, em processos como Source to Pay, Order to Cash, Record to Report e Hire to Retire. Escala vem de redesenho de processo, não de casos pontuais.
- Agentic AI dominou o evento. A evolução foi clara: de AI Assistant para AI Agent, até Agentic Solutions end-to-end. Agentes como força de trabalho digital deixou de ser conceito, virou roadmap.
- Mudança de papel do CSC. De executor e automatizador para plataforma inteligente orientada ao negócio, o que alguns chamam de Enterprise Capability Platform. Para quem lidera CSC no Brasil, é uma janela de reposicionamento que não vai ficar aberta para sempre.
Três obrigatoriedades do CSC que as empresas insistem em ignorar:
- O problema não é a IA. É o que vem antes dela. Processo mal documentado, dado não confiável e governança fraca travam qualquer iniciativa, independentemente da plataforma escolhida. Quem resolve o fundamento primeiro escala. Quem pula essa etapa, repete o piloto indefinidamente. É por isso que, nos nossos projetos, combinamos programas de AI & Data Literacy com mapeamento estruturado de processos antes de escalar qualquer solução. Sem equipes preparadas e processos claros, nenhum modelo de IA entrega resultado.
- Escala não é consequência natural de um bom piloto, mas uma decisão de arquitetura. As empresas que estão gerando resultado construíram infraestrutura desde o início: agentes modulares, lógica de produto, visão de plataforma. Quem pensa em sistema escala.
- Sofisticação não é sinônimo de valor. O ROI está sendo deixado na mesa porque muitas organizações escolhem a solução mais sofisticada, não a mais adequada. Impacto real vem de foco e foco exige clareza sobre o problema antes de qualquer escolha tecnológica.
Foi com esse pano de fundo que o nosso roundtable ganhou o tom que ganhou. Menos sobre tendências, mais sobre como sair do lugar.
Existe um ciclo que paralisa a maioria das lideranças de CSC: sem resultado não há orçamento, sem orçamento não há resultado. Foi esse nó que abrimos no roundtable.
Apresentamos o modelo de Flywheel de Valor com IA (self-funded transformation), estruturado em duas camadas distintas.
- A primeira é a IA incremental. Soluções do dia a dia, que aumentam a produtividade e liberam capacidade operacional. Aqui, na maioria dos casos, a própria organização tem condição de desenvolver internamente. É onde se começa, onde se aprende e onde se capturam os primeiros ganhos reais.
- A segunda é a IA transformacional. Soluções mais robustas, que redefinem processos críticos e exigem capacidade tecnológica que nem sempre existe dentro da organização. Nesse nível, um parceiro especializado ou uma solução com a capability embarcada não é conveniência, é estratégia.
O que direciona essa escolha não é o tamanho do orçamento nem a ambição da liderança. É uma pergunta anterior e mais fundamental: qual é o problema que quero resolver, e qual capacidade tecnológica esse problema específico exige?
O debate que se seguiu foi o mais tenso e produtivo do nosso dia. Casos reais foram trazidos à mesa, houve discordância, e a sala convergiu para uma conclusão que vai além do modelo financeiro: as melhores soluções emergem de dentro da organização, de equipes preparadas que entendem o problema antes de escolher a ferramenta e resistem à tentação de usar um canhão para matar um mosquito.
A mensagem do SSOW 2026 é clara: menos experimentação isolada, mais transformação estruturada. Menos tecnologia por si só, mais foco em valor. Menos automação simples, mais inteligência distribuída.
Para quem lidera operações o caminho já está mapeado, e a nossa comunidade tem maturidade de sobra para acelerar. O que falta na maioria dos casos é estrutura de execução.
RICARDO AVILA é Sócio na EloGroup
RAFAEL FREIRE é Diretor na EloGroup





