Por Fábio Catein, João Antônio Rondina, Jonathas Ferreira e Rafael Cabral
- 85% das empresas falharão em otimizar custos de cloud. O desafio é estrutural, não pontual.
- O framework FinOps opera em três fases complementares (Informar, Otimizar, Operar) que criam um ciclo contínuo de eficiência.
- Organizações com baixa maturidade inicial podem alcançar reduções de 20–50% no primeiro ano sem comprometer performance.
- FinOps não é projeto de corte de gastos, mas uma disciplina que transforma a relação da empresa com o consumo de cloud.
Se sua empresa migrou para o ambiente cloud nos últimos anos com a promessa de agilidade e redução de custos, é provável que já tenha se deparado com um fenômeno contraditório: a fatura mensal cresce, e ninguém consegue explicar exatamente o porquê. Para executivos e C-levels, o detalhamento desse gasto frequentemente se assemelha a uma “caixa preta”, em que os números chegam, mas a leitura é opaca.
Esse cenário não é um caso isolado. Trata-se de uma realidade cada vez mais comum em organizações que aceleraram sua jornada de transformação digital sem estabelecer mecanismos adequados de governança financeira sobre seus ativos tecnológicos. Segundo estimativas da Gartner, 85% das empresas falharão em otimizar os custos de infraestrutura em nuvem nos próximos anos — um dado que evidencia a escala do desafio.
É nesse contexto que o FinOps (Financial Operations) se posiciona como disciplina estratégica. Longe de ser apenas um projeto de corte de gastos, a aplicação de FinOps representa uma mudança cultural e operacional que visa maximizar o valor que a tecnologia gera para o negócio, promovendo accountability financeira para elevar a eficiência na alocação de recursos.
A abordagem da EloGroup em FinOps não parte do corte, mas da compreensão: entender para onde vai cada real investido em cloud é o primeiro passo para transformar custo em alavanca de competição.
Neste artigo, vamos desmontar o framework FinOps (desenvolvido e mantido pela FinOps Foundation) em suas três fases complementares — Informar, Otimizar e Operar — e apresentar como essa abordagem se traduz em resultados concretos quando implementada de maneira estruturada e alinhada aos objetivos do negócio.
As três fases do FinOps: Informar, Otimizar, Operar
Em qualquer estratégia de FinOps, três etapas orientam a aplicação: Informar, Otimizar e Operar. Quando executadas de forma integrada, especialmente em ambientes que combinam múltiplas stacks tecnológicas, elas geram um ciclo contínuo de melhoria, resultando em economias significativas e contínuas ao longo do tempo.
Fase 1 — Informar: tornando o invisível visível
O primeiro passo, de entender exatamente como o custo de nuvem está distribuído, é aparentemente simples, mas constitui o alicerce de tudo que vem depois. A maioria das empresas não possui essa visibilidade, pois as informações costumam estar fragmentadas entre plataformas, departamentos e projetos distintos.
Imagine gerenciar o orçamento de uma residência com a fatura de água num sistema e a de eletricidade em outro. Você nunca consegue enxergar uma visão macro dos seus gastos reais. É exatamente isso que acontece nas organizações sem governança FinOps.
A natureza elástica e dinâmica dos serviços cloud, aliada a modelos complexos de precificação e descontos por compromisso, torna essa dificuldade de visibilidade crítica. Na prática, a fase de Informar ataca esse problema por meio de duas frentes estruturantes:
Levantamento de fontes de custo e geração de baseline
O ponto de partida é mapear como a infraestrutura está organizada para descobrir quais serviços estão ativos, quem os utiliza, com que frequência e com qual custo associado. Para capturar essas informações de consumo, é necessária a configuração de ferramentas como o Cost Management na Azure e o billing do Databricks.
O resultado desta etapa é um relatório inicial de custos que consolida todas as fontes de gasto identificadas, servindo como baseline para as próximas etapas. A partir dele, torna-se possível enxergar com clareza quais serviços mais pesam na fatura e onde estão os principais ofensores.
Tagueamento estratégico (tagging)
Uma prática essencial nesta fase é o tagueamento universal, que significa implementar regras rigorosas onde todo recurso criado em nuvem recebe etiquetas (tags) que identificam a qual área de negócio, projeto ou ambiente ele pertence. O paradigma da gestão moderna “o que não se mede, não se gerencia” se aplica para o framework de FinOps também. Um tagueamento de qualidade permite rastrear custos não apenas por tecnologia, mas por responsável financeiro, viabilizando um rateio justo entre departamentos.
Fase 2 — Otimizar: agir com inteligência técnica
Com a visibilidade estabelecida, inicia-se a frente que gera impacto financeiro direto, de identificar e implementar oportunidades concretas de eficiência, preservando (ou até melhorando) os níveis de performance, confiabilidade e escalabilidade.
Ganhos rápidos (Quick Wins)
Ações imediatas que geram alto impacto financeiro sem exigir mudanças profundas na arquitetura. Na prática, isso pode incluir:
- Adoção de arquiteturas mais eficientes e apropriadas para cada carga de trabalho
- Readequação do dimensionamento de recursos subutilizados ou desnecessários
- Eliminação de ambientes de testes esquecidos e recursos órfãos
- Desativação de aceleradores de performance em processos não críticos
Gestão de compromissos (Reserved Instances)
Para cargas de trabalho previsíveis, migrar do modelo pay-as-you-go para contratos de longo prazo pode gerar economias expressivas. Comprometer-se com o uso de 1 a 3 anos pode representar:
- Até 62% de economia em máquinas virtuais (VMs)
- Até 73% de economia em bancos de dados SQL
Esses modelos são conhecidos como Reserved Instances (RIs), Savings Plans (SPs) ou Committed Use Discounts (CUDs), dependendo do provedor de cloud utilizado.
Fase 3 — Operar: transformando FinOps em cultura
A melhor otimização é aquela que se sustenta. Se você otimiza uma vez e depois abandona o processo, os custos voltam a subir nos meses seguintes. Por isso, a terceira fase, de transformar FinOps em um processo contínuo e integrado à cultura da organização, é crítica. Abaixo ilustramos alguns tipos de ações que podem ser tomados para perenizar os ganhos de uma abordagem estruturada de FinOps:
Ciclo de vida de dados
Criação de políticas automáticas para redução de custos de armazenamento a longo prazo:
- 30 dias sem acesso: dados migram para camadas mais baratas (cool)
- 60 dias: migração para cold storage
- 180 dias: transferência para archive (custo mínimo)
Essa automação elimina a intervenção manual e garante que dados “frios” não continuem armazenados no mesmo nível de custo que dados acessados diariamente.
Alertas de orçamentos escaláveis
O executivo não pode ser surpreendido no fechamento do mês. Configuração de alertas em camadas com notificações automáticas quando o consumo atinge marcos críticos é parte fundamental da operação. Por exemplo*:
- 50% do orçamento: alerta de acompanhamento
- 100%: alerta de atenção para os responsáveis
- 150%: escalação automática para gestão
- 200% (ambientes não críticos): interrupção automática dos recursos
*A definição dos alertas e seus respectivos gatilhos deve se adaptar ao contexto da organização, variando conforme a estrutura, as soluções adotadas e os orçamentos específicos de cada ambiente.
Detecção de anomalias
Implementação de monitoramento inteligente que identifica desvios atípicos de padrão (como um pico de processamento não planejado em um final de semana, por exemplo), e envia notificações imediatas aos responsáveis para correção rápida, antes que o custo escale.
Dashboards executivos e técnicos
O portal cloud nativo costuma ser confuso para líderes de negócio. Por isso, a construção de painéis customizados, interativos e dinâmicos, conectados diretamente aos dados de faturamento dos provedores, cria uma camada de inteligência acessível aos principais stakeholders.
Nesses painéis, o executivo acompanha o crescimento mensal, variação e comparativos de custos gerais, enquanto os engenheiros conseguem descer ao nível de detalhe de quanto custa a execução de um único pipeline de dados. Com os dados visíveis e acessíveis, equipe técnica e líderes financeiros passam a falar a mesma língua.
Além do custo, vale ressaltar a importância de análise de outras métricas, de forma a parametrizar os gastos e permitir uma análise correta de eficiência da arquitetura. O aumento de custo de cloud não é negativo por si só, podendo ser justificado por investimentos e crescimento no uso de dados pela organização.
Uma parametrização correta permite a normalização que habilita uma comparação mais justa. Assim, passamos a acompanhar o custo de processamento por quantidade de pipelines ativos ou o custo de armazenamento por TBm, por exemplo.
Capacitação e documentação
Estruturação de diretrizes claras, treinamentos e automações alinhadas aos objetivos, incluindo documentação de lições aprendidas, resultados capturados e a cultura FinOps estabelecida.
FinOps como disciplina permanente de gestão
FinOps não é um projeto com início, meio e fim. É uma mentalidade de gestão e eficiência operacional que redefine a forma como a empresa consome cloud e, por consequência, como ela inova e escala.
Em organizações que buscam um investimento mais eficiente e orientado ao valor, otimizar a estrutura de cloud pode significar uma redução no custo, habilitando investimentos que podem mudar o jogo da organização.
Ao estruturar o ciclo de Informar (dar visibilidade ao consumo), Otimizar (agir com inteligência técnica) e Operar (sustentar ganhos de forma contínua), organizações passam a capturar ganhos relevantes de eficiência. Em ambientes com baixa maturidade inicial, reduções de custos entre 20–50% podem ocorrer no primeiro ano, sem comprometer performance, confiabilidade e capacidade de inovação.
A implementação da solução de FinOps traduz o uso de nuvem em previsibilidade e retorno sobre o investimento. Com a casa arrumada, a equipe deixa de apagar incêndios com a fatura mensal e passa a utilizar cloud como o habilitador de inovação que ela foi desenhada para ser.
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FÁBIO CATEIN é Sócio e Especialista Sênior em engenharia de dados na EloGroup
JOÃO ANTÔNIO RONDINA é Gerente na EloGroup
JONATHAS FERREIRA é Engenheiro de Dados na EloGroup
RAFAEL CABRAL é Gerente de Data & AI na EloGroup





