Por André Franco
Corte de acesso a modelos de fronteira por decisão regulatória expõe vulnerabilidade que estratégias multi-modelo, sozinhas, não resolvem. A pergunta que importa é se a inteligência do negócio sobrevive à troca de fornecedor.
Enquanto a maioria das empresas brasileiras ainda não captura valor consistente com modelos disponíveis, o episódio antecipa o desafio inevitável de tratar IA como infraestrutura crítica com plano de continuidade.
Soberania em IA não é desenvolver modelos próprios, mas garantir que o conhecimento acumulado pela empresa não fique refém de uma única decisão.
Em uma sexta-feira de junho de 2026, no fim da tarde, dois dos modelos de inteligência artificial mais avançados do mundo foram desligados para todos os clientes que os utilizavam, incluindo empresas que pagavam por eles e mantinham seus contratos em total conformidade. A causa não foi uma falha técnica nem uma disputa comercial, mas uma decisão regulatória relacionada ao controle de exportação de tecnologia.
O episódio gerou manchetes alarmistas sobre um possível “apagão tecnológico” global. Na prática, porém, acredito que o impacto imediato para a maior parte das empresas brasileiras seja bastante limitado. A realidade é que muitas organizações ainda não conseguem capturar valor consistente nem com modelos lançados há alguns anos. O principal gargalo raramente é a capacidade da tecnologia de ponta, mas, normalmente, são os processos desatualizados, o baixo letramento em IA e a dificuldade de redesenhar papéis e formas de trabalho.
Buscar continuamente o modelo mais avançado do mercado sem resolver esses fundamentos tende a gerar pouco resultado. O desafio continua sendo transformar profissionais em supercolaboradores, capazes de utilizar as ferramentas já disponíveis para ampliar produtividade, qualidade e capacidade de execução. Mas, se o impacto imediato é limitado, o alerta estratégico é enorme.
Durante muito tempo, soberania tecnológica foi tratada como um tema político ou distante da realidade empresarial. Esse episódio, porém, mostra que essa separação já não existe. Modelos de IA de fronteira deixaram de ser apenas produtos de mercado e passaram a fazer parte de disputas geopolíticas e regulatórias. Isso significa que decisões tomadas fora do ambiente corporativo podem afetar operações inteiras sem qualquer aviso prévio.
A resposta de muitas empresas tem sido adotar estratégias multi-modelo. Segundo uma pesquisa recente da Andreessen Horowitz (a16z), 81% dos CIOs já utilizam três ou mais famílias de modelos de IA, ante 68% no ano anterior. É um movimento importante, mas que resolve apenas parte do problema. Diversificar entre GPT, Claude e Gemini reduz dependências tecnológicas específicas, mas não necessariamente reduz dependências regulatórias. Em muitos casos, continuamos expostos às mesmas jurisdições e aos mesmos riscos geopolíticos.
Essa vulnerabilidade é o que o Gartner chama de risco da “monocultura de modelos”. E o mercado já começa a se movimentar para reduzir esse tipo de dependência. A expectativa é que, até 2028, 65% dos governos implementem requisitos de soberania tecnológica para mitigar interferências regulatórias extraterritoriais. Na mesma direção, mais de 75% das empresas da Europa e do Oriente Médio devem “geopatriar” parte de suas cargas de trabalho até o fim da década para reduzir riscos geopolíticos.
Como, então, construir uma estratégia de IA que seja ao mesmo tempo resiliente e soberana? A resposta não está em desenvolver modelos de fronteira dentro de casa, mas em adotar arquiteturas que preservem a inteligência do negócio independentemente da tecnologia que a executa.
Recentemente, Satya Nadella (chairman e CEO da Microsoft) trouxe uma reflexão interessante sobre esse futuro. Segundo ele, as organizações precisarão equilibrar dois tipos de patrimônio: o capital humano, formado pelo conhecimento e pela experiência das pessoas, e o capital de tokens, representado pela capacidade de IA construída e acumulada pela empresa. O diferencial competitivo não estará em consumir o melhor modelo disponível em determinado momento, mas em criar mecanismos para que esses dois ativos evoluam juntos.
Isso nos leva a uma pergunta simples: sua empresa conseguiria trocar o modelo de IA que utiliza hoje sem perder o conhecimento acumulado nos seus processos?
Se a resposta for não, existe uma dependência estrutural que merece atenção. A inteligência do negócio precisa estar separada da tecnologia que a executa. Na prática, isso significa construir plataformas mais agnósticas, orientadas por orquestração e capazes de substituir componentes específicos quando necessário.
Modelos proprietários continuarão tendo um papel central em muitos casos de uso, especialmente pela qualidade, escala e velocidade de evolução que oferecem. Ao mesmo tempo, modelos abertos, SLMs especializados e infraestruturas regionais podem funcionar como alternativas estratégicas para processos críticos ou requisitos específicos de soberania.
O objetivo não é escolher um lado, mas garantir que a inteligência do negócio permaneça sob o controle do negócio, independentemente da tecnologia utilizada em cada momento. Tratar IA como infraestrutura essencial exige o mesmo rigor que aplicamos a sistemas corporativos, redes ou data centers. Algumas medidas práticas ajudam a reduzir essa exposição:
- Mapear criticidade e substitutibilidade. Poucas empresas sabem exatamente quais processos dependem de quais modelos, especialmente quando consideramos o uso crescente de Shadow AI.
- Testar alternativas na prática. Um plano de contingência que existe apenas no contrato não funciona quando um serviço deixa de existir de um dia para o outro.
- Incluir jurídico e compras na estratégia. Questões como portabilidade, continuidade e direitos de migração precisam fazer parte das discussões desde o início.
- Diversificar de forma seletiva. Nem todo processo exige redundância completa, mas atividades críticas podem justificar modelos alternativos ou soluções abertas prontas para entrar em operação.
Os modelos continuarão evoluindo, as regulações continuarão mudando e as disputas geopolíticas continuarão influenciando o acesso à tecnologia. Empresas que tratam essa volatilidade como um evento excepcional continuarão sendo surpreendidas. Já aquelas que a incorporarem como uma restrição natural de projeto construirão organizações mais resilientes e preparadas para o futuro.
Fica uma provocação para a próxima reunião de liderança: se a IA que apoia o seu negócio fosse desligada amanhã por uma decisão que está completamente fora do seu controle, em quanto tempo sua operação voltaria ao normal? E, mais importante, o conhecimento acumulado pela sua empresa continuaria pertencendo a ela?
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ANDRÉ FRANCO é Sócio na EloGroup





