Por Matheus Americano, Alexandre Sawaya, Gabriel Dias e Fernando Dias
Software de má qualidade custa US$ 2,41 trilhões/ano no mundo, enquanto investir em qualidade devolve 3 a 5x o valor aplicado;
Automatizar primeiro e pensar depois falha: em um cliente real, a estratégia automation-first gerou retrabalho e ROI difícil de defender, até a virada para QA-first;
Com processo antes de script, a operação chegou a 11.865 execuções em um trimestre e reduziu em ~29% o esforço do negócio na Reforma Tributária.
De fim de linha a alavanca de negócio
Por décadas o teste ficou no fim da esteira, acionado quando o código já estava pronto e o prazo apertava. Essa lógica reativa custa caro, já que o software de má qualidade consome cerca de US$ 2,41 trilhões por ano no mundo, segundo o CISQ. No contexto ágil o problema se agrava, porque 68% das organizações ainda não conseguem integrar qualidade ao desenvolvimento, conforme o World Quality Report 2024-25 da Capgemini.
Quem trata qualidade como investimento, e não como despesa, colhe retorno claro. Além do ganho de 3 a 5x sobre o aporte, corrigir um defeito na concepção custa de 5 a 10 vezes menos do que em produção, e equipes de alto desempenho registram taxa de falha em mudanças 7x menor, de acordo com o DORA. Some-se a proteção de marca, decisiva quando 75% dos consumidores evitam empresas após falhas de software, e a qualidade deixa de ser um centro de custo para virar vantagem competitiva. Foi exatamente essa virada de chave que a EloGroup atuou em uma multinacional do agronegócio com operação SAP de larga escala, cuja jornada costura este artigo.
Por que começar pela ferramenta é o erro mais caro
A história desse cliente começou como a de muitos: automatizar primeiro, pensar depois. O resultado foi o previsível. Os scripts quebravam a cada mudança de sistema, e a equipe gastava mais tempo restaurando automação do que gerando valor. Pior, automatizava-se o que era fácil de escrever, não o que era crítico para o negócio, então defeitos seguiam chegando à produção e os patrocinadores passaram a questionar o ROI. A cobertura existia no papel, mas ninguém sabia ao certo o que estava realmente protegido.
A correção de rota foi adotar um modelo QA-first, e a sequência importa. Primeiro vieram o mapeamento e a documentação dos processos críticos de ponta a ponta, dando à equipe uma linguagem comum antes de escrever qualquer caso de teste. Depois, a construção de uma biblioteca de testes estruturada e reutilizável, alinhada aos requisitos. Em seguida, a governança e as métricas, que tornaram a qualidade mensurável para os stakeholders. Só então, sobre processos estáveis e comprovados, a automação entrou de forma seletiva, mirando os cenários de alto valor, e o ROI ficou claro e defensável. No fundo, a lição é simples de enunciar e difícil de praticar: a estratégia define o quê e o porquê, os objetivos, os riscos e o escopo, antes de qualquer conversa sobre o como, que é a ferramenta. Ferramenta é detalhe de implementação; estratégia é o roteiro.
Há uma razão técnica por trás desse fracasso inicial, e ela tem nome. Ao perseguir cobertura a qualquer custo, a operação inflou a camada mais frágil e cara de qualquer suíte, a dos testes de interface, que quebram a cada pequena mudança visual e consomem mais manutenção do que entregam. A estratégia madura segue a lógica da pirâmide de automação: uma base ampla de testes rápidos e estáveis em nível de unidade e API, e um número enxuto de testes de interface, reservados aos fluxos realmente críticos. O objetivo deixa de ser cobrir tudo e passa a ser cobrir o que importa, com estabilidade. Quando a proporção se inverte e os testes de interface dominam, o sinal de alerta está dado, em geral à custa de orçamento e credibilidade.
Essa ordem reflete os pilares que sustentam qualquer transformação de qualidade madura. O Shift-Left Testing antecipa a qualidade para a definição dos requisitos e reduziu em 60% os custos de correção em empresas como Google e Spotify. Os Quality Gates criam pontos de verificação obrigatórios; os Testes Baseados em Risco priorizam o esforço por probabilidade e impacto de falha; e a Qualidade Compartilhada distribui a responsabilidade entre devs, POs e operações. A automação vem por cima dessa base, não no lugar dela: a proposta combina o Selenium WebDriver, open source e robusto, com interfaces low-code baseadas em keywords, que permitem a QAs e POs montar testes sem código, e a GenAI eleva o patamar ao validar requisitos, gerar casos de teste e produzir scripts integrados a Jira, GitHub e pipelines de CI/CD.
Qualidade sob medida: por que não existe modelo universal
Reconstruir a operação não significou impor um modelo de prateleira. Tentar aplicar o mesmo processo rígido a todo projeto é o caminho mais curto para transformar qualidade em burocracia. A EloGroup parte de um conjunto de práticas definido e maduro, mas calibra quais procedimentos, entregáveis e gates se aplicam a cada iniciativa conforme o seu contexto. Essa lógica de qualidade sob medida, o tailoring, equilibra flexibilidade e governança: o processo é completo e padronizado como referência, porém adaptado ao risco, ao tamanho, à criticidade e à maturidade de cada projeto e time.
Os modelos operacionais seguem a mesma lógica de adaptação: o centralizado garante padronização e governança, mas pode virar gargalo; o descentralizado aproxima a qualidade do produto, ao custo de inconsistência entre squads; o híbrido equilibra os dois. No cliente, a operação combinou os três conforme a maturidade, com processo descentralizado nas squads para o discovery, um núcleo centralizado para o delivery e uma camada de governança transversal cuidando de adoção, KPIs e comunidades de prática.
Frameworks de maturidade como TMMi e CMMI entram como referência que orienta o tailoring, e não como esteira obrigatória. No início da jornada, em 2026, o cliente situava-se nos primeiros níveis de maturidade, estruturando o processo e provando valor por pilotos, com um plano claro de evolução rumo a uma QA preditiva e orientada a dados. A adoção dessa abordagem estruturada de maturidade reduz de 40% a 60% o custo total de qualidade.
Os resultados na prática
Com processo antes de script, os números deixaram de ser sobre quantidade de testes e passaram a falar a língua do negócio. A operação escalou de forma consistente e sustentável ao longo de seis sprints por trimestre.
O destaque de negócio veio da Reforma Tributária: ao liderar a execução dos testes, a QA reduziu em aproximadamente 29% a carga de trabalho das áreas de negócio, cobrindo 269 cenários e quase 2.000 passos de teste. Em paralelo, o volume de execução cresceu de 9.749 runs em 2025 para 11.865 no primeiro trimestre de 2026, sinal de capacidade de execução robusta e cobertura em expansão, não de esforço desperdiçado.
Esse princípio de focar no valor já se traduziu em resultado mensurável. Em 2025, ao assumir a liderança da execução dos testes na adaptação à Reforma Tributária, a operação de qualidade retirou cerca de 29% do esforço que recaía sobre as áreas de negócio do cliente, que puderam redirecionar esse tempo para o que de fato exige julgamento humano. A ambição para 2026 vai além, porque a meta é elevar a cobertura automatizada a 100% dos cenários de teste e, com isso, liberar o negócio por completo da execução manual, consolidando a automação como uma engrenagem que roda em segundo plano enquanto as pessoas se concentram em decidir.
A maturidade também apareceu na forma de capturar defeitos mais cedo. Foram 155 defeitos levantados no Q1 2026, a maioria identificada antes de chegar à produção, sustentados por uma biblioteca de 2.065 casos de teste, 248 planos e 81 fluxos de negócio ponta a ponta. Em um Service Pack Upgrade do SAP, 77 cenários automatizados rodaram com 85% de aprovação e anteciparam blockers críticos, alimentando diretamente a decisão de Go/No-Go com evidência, não com intuição.
O que não se mede, não se melhora
Nada disso se sustenta sem medição. No plano da engenharia, as métricas DORA definem a faixa elite, com lead time abaixo de um dia, deploys sob demanda, falha em mudanças abaixo de 15% e recuperação em menos de uma hora. Já no plano executivo, KPIs como cobertura de testes, densidade de defeitos, percentual de automação e custo evitado traduzem qualidade em linguagem de negócio. No cliente, esses indicadores ganharam vida em um QA Journal por sprint, campos customizados no Jira e um dashboard dedicado, com rituais de checkpoint que mantiveram a adoção do novo modelo sob o olhar das lideranças. Uma matriz RACI fechou o ciclo ao distribuir papéis e tornar a qualidade compartilhada um compromisso explícito.
MATHEUS AMERICANO é Sócio na EloGroup.
ALEXANDRE SAWAYA, GABRIEL DIAS e FERNANDO DIAS são da EloGroup.





