O problema da IA nas empresas não é a adoção, mas a transformação

Por André Franco

  • Uso de IA continua crescendo e já gera ganhos percebidos de produtividade para muitos profissionais.
  • Desafio passa a ser transformar esses ganhos individuais em mudanças duradouras na forma como o trabalho é organizado.
  • Organizações que aprendem mais rápido tendem a acumular vantagens que vão além da adoção de ferramentas.
  • A questão central deixa de ser “quem está usando IA?” e passa a ser “quem está aprendendo a operar de forma diferente por causa dela?”
O que está sendo chamado de adoção e o que de fato está acontecendo

Existe um descompasso grande entre o que as empresas dizem que estão fazendo com IA e o que de fato está acontecendo no dia a dia. Os relatórios mostram números altos, como o Work Trend Index 2026, da Microsoft, afirmando que 66% dos profissionais que usam IA dizem ter mais tempo para trabalho de alto valor; entre os usuários mais avançados, 80% afirmam estar produzindo coisas que não conseguiriam um ano atrás.

São dados autorrelatados, e provavelmente verdadeiros para quem respondeu. O ponto interessante é que esses números não falam apenas sobre produtividade, mas sugerem que as pessoas estão experimentando novas formas de executar atividades, tomar decisões e produzir resultados. A questão estratégica é o que acontece quando esse aprendizado individual deixa de ficar restrito ao indivíduo e passa a alterar processos, fluxos de trabalho e formas de coordenação dentro da organização.

O desafio passa a ser transformar descobertas individuais em capacidades organizacionais. Não basta que algumas pessoas encontrem formas melhores de trabalhar, é a organização que precisa ser capaz de capturar esse aprendizado, disseminá-lo e incorporá-lo à sua operação. Em muitos casos, a IA ainda está sendo usada para acelerar o modelo operacional existente, não para redesenhá-lo. Ou seja, é o mesmo trabalho de antes feito um pouco mais rápido, com uma camada de Copilot ou ChatGPT por cima.

Na prática, continua sendo a mesma reunião que não precisava existir, o mesmo e-mail que não precisava ser enviado e o mesmo slide que ninguém vai ler com atenção, mas agora com IA. Algo semelhante ao início da transformação digital, quando o fato de uma empresa usar e-mail em 1998 não significava, por si só, que ela havia se transformado digitalmente. A adoção da tecnologia foi importante, mas os ganhos mais relevantes vieram quando ela passou a alterar processos, estruturas e formas de coordenação dentro da organização.

Como diferenciar adoção de transformação

Existe um teste simples que ajuda a diferenciar organizações que estão incorporando IA à operação daquelas que ainda permanecem concentradas na camada de adoção. Não envolve métrica de adoção, número de licenças ou percentual de funcionários treinados, mas a pergunta sobre “o que parou de ser feito desde que vocês começaram a usar IA?”. Quando uma organização elimina um ritual, simplifica um fluxo decisório ou redefine responsabilidades porque encontrou uma forma melhor de operar, mais do que ganhar eficiência, ela está acumulando aprendizado organizacional, diferente do conhecimento individual e que passa a fazer parte da forma como a empresa trabalha.

Esse é o ponto onde muitas iniciativas travam porque isso exige decisões difíceis sobre processos, responsabilidades e formas de trabalho já estabelecidas. É muito mais simples expandir licenças e medir adoção do que discutir quais processos perderam sentido.

Os limites do comitê de IA

Aqui está o segundo elo do problema, que é o que torna o primeiro tão difícil de resolver. Em muitas empresas, a liderança fez algo que parece responsável ao criar um comitê de IA. O limite dos comitês de IA não é coordenação, mas relacionado ao aprendizado organizacional, que só se materializa quando altera prioridades, métricas, fluxos de decisão e responsabilidades. Essas decisões normalmente pertencem à liderança da operação, não ao próprio comitê e, enquanto IA continuar operando como iniciativa isolada de inovação, tecnologia ou transformação, ela tende a produzir pilotos, métricas e casos pontuais, mas com dificuldade de alterar a lógica operacional da empresa. A operação só muda quando a liderança decide que muda e demonstra isso na própria rotina.

Tenho uma pergunta que faço em conversas com executivos e que, quase sempre, gera silêncio: quantas das suas próprias decisões da última semana você tomou de forma diferente por causa da IA? Não pergunto se o time usou IA para gerar material, mas se a sua rotina mudou, sua agenda, sua forma de consumir informação, seu critério de aprovação e até a velocidade com que determinadas decisões acontecem. Se a resposta é nenhuma, vale refletir sobre até que ponto a transformação chegou aos processos decisórios da organização, independente do que diz o roadmap.

Por que o modelo de adoção superficial funciona e como ele se sustenta

Há razões estruturais para que esse modelo de adoção superficial continue se sustentando. O estudo da Microsoft captura uma delas com precisão: 65% dos profissionais ouvidos dizem temer ficar para trás se não usarem IA, mas 45% dizem que é mais seguro focar nas metas atuais do que redesenhar o trabalho. Apenas 13% sentem que são recompensados por reinventar, quando o resultado imediato não aparece.

Traduzindo para a realidade do gestor médio brasileiro, ele tem um ciclo de avaliação que cobra entrega trimestral, uma meta de orçamento que não foi recalibrada para considerar redesenho, e um diretor acima dele que diz “transforma, mas sem deixar de entregar”. Nesse contexto, priorizar iniciativas de baixo atrito organizacional acaba sendo a escolha mais racional para muitos gestores.

Adotar Copilot para o time é seguro, enquanto eliminar o determinado relatório semanal que tomava 48 horas/mês é arriscado, já que alguém vai perguntar quem autorizou. Então o sistema produz adoção sem transformação e todo mundo fica relativamente satisfeito, a TI bate meta de licenças ativas, RH bate meta de pessoas treinadas, o C-level pode dizer no conselho que “estamos avançando em IA” e os números autodeclarados sobem.

No curto prazo, organizações com níveis muito diferentes de aprendizado podem parecer semelhantes quando observadas apenas por métricas de adoção. Com o tempo, porém, a diferença tende a aparecer, não porque algumas empresas tenham acesso a ferramentas melhores, mas porque aprenderam mais sobre como operar com elas. A vantagem competitiva real não está se acumulando no nível da adoção da ferramenta, mas no nível do aprendizado organizacional que cada empresa constrói ao redesenhar processos, fluxos de decisão e formas de operar usando IA.

Redesenhar trabalho não é apenas implementar tecnologia, mas exige revisitar rituais, redefinir papéis e responsabilidades, recalibrar métricas, rever níveis de autonomia e, muitas vezes, reduzir coordenação desnecessária construída ao longo de anos.

O ativo que realmente importa

Existe uma tendência de enxergar IA como uma ferramenta de produtividade, mas esse é apenas o efeito mais visível. O Work Trend Index sugere que algumas organizações estão começando a operar como sistemas de aprendizado contínuo. Nelas, experimentações individuais não permanecem isoladas, mas são capturadas, compartilhadas e incorporadas à forma como a empresa trabalha.

O ativo mais relevante que algumas organizações estão construindo é a capacidade de aprender continuamente novas formas de trabalhar, capturar esse aprendizado e disseminá-lo pela operação. É isso que torna determinadas transformações cumulativas e o que torna algumas capacidades difíceis de copiar.

As três perguntas que importam mais do que métricas de adoção

Para quem está numa posição de liderança hoje, três perguntas valem mais do que muitos dashboards de adoção. Elas ajudam a entender se a IA está sendo utilizada apenas como ferramenta de produtividade ou se está gerando aprendizado organizacional.

  • Primeira: o que a sua organização aprendeu nos últimos seis meses sobre como trabalhar de forma diferente por causa da IA? Aprender é mais do que usar, mas descobrir novas formas de executar atividades, tomar decisões e coordenar trabalho.
 
  • Segunda: qual processo, ritual ou entrega foi simplificado, redesenhado ou eliminado porque esse aprendizado foi incorporado à operação? O aprendizado só gera transformação quando deixa de estar restrito às pessoas e passa a fazer parte da forma como a organização funciona.
 
  • Terceira: quais dessas mudanças exigiram decisões da liderança para acontecer? Se todas as iniciativas permanecem dentro do escopo dos times de inovação, tecnologia ou do próprio comitê de IA, é possível que a organização esteja avançando em adoção sem necessariamente avançar em transformação.
O que está em jogo

A discussão sobre IA costuma começar pela tecnologia e rapidamente migrar para produtividade, mas o debate mais importante talvez esteja em entender que o diferencial entre organizações não será definido apenas pela capacidade de utilizar IA, mas pela capacidade de aprender com ela.

As organizações que criarem mecanismos para capturar, compartilhar e incorporar aprendizados gerados pelo uso da IA tendem a construir algo mais valioso do que ganhos pontuais de eficiência, como a capacidade de aprender continuamente e transformar esse aprendizado em novas formas de operar. A diferença entre esses dois grupos não estará na adoção da tecnologia em si, mas na capacidade de transformar aprendizado em inteligência organizacional.

Esse é um ativo difícil de copiar porque não nasce da tecnologia em si, mas da interação entre pessoas, processos, contexto e uso real da tecnologia ao longo do tempo. Talvez essa seja a principal mensagem do Work Trend Index 2026. A questão não é apenas quem está adotando IA mais rapidamente e sim quem está aprendendo mais rápido com ela.

Dados citados ao longo do texto: Microsoft. 2026 Work Trend Index Annual Report — Agents, human agency, and the opportunity for every organization. Maio de 2026.
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ANDRÉ FRANCO é Sócio na EloGroup

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